Jorge
Fernando Branco de Sampaio
Presidente da
República
Senhor Presidente do Conselho Directivo do ISEG
Senhor Secretário-Geral da CGTP-Intersindical
Senhor Professor José Manuel Tengarrinha
Senhor Professor João Caraça
Minhas senhores
e meus senhores
Quero agradecer o convite que me foi dirigido pelos organizadores
e que me concede a honra de poder participar nesta homenagem a Bento
de Jesus Caraça no Instituto Superior de Economia e Gestão.
Tem um significado
muito especial o facto do centenário do nascimento de Professor
Bento de Jesus Caraça ter lugar no seu instituto universitário,
na sua casa, donde nenhuma força despótica o pôde
retirar, e onde, a par do notável legado do pedagogo e do
cientista, o seu exemplo moral permaneceu tanto mais forte depois
de um processo infame ter forçado a sua demissão de
professor catedrático do Instituto Superior de Ciências
Económicas e Financeiras.
Cidadão
exemplar, professor e matemático ilustre, Bento de Jesus
Caraça foi um homem do seu tempo e que marcou o seu tempo.
A sua vida,
demasiado breve e tão intensa, atravessou o período
mais critico da Europa do século XX, arruinada por uma sucessão
trágica de guerras e revoluções, em que todos
os limites pareciam ceder e todas as utopias pareciam possíveis.
Como os melhores
da sua geração em Portugal, Bento de Jesus Caraça
foi um opositor destemido ao regime autoritário do Estado
Novo, enfrentando, sempre com uma coragem inquebrantável,
as perseguições, as humilhações e a
prisão.
Durante os anos
de chumbo, entre a consolidação do regime salazarista,
na década de trinta, a guerra civil de Espanha e a II Guerra
mundial, a sua militância política foi permanente.
Dirigente do
Movimento de Unidade Nacional Antifascista e do Movimento de Unidade
Democrática, onde se reuniram republicanos, comunistas e
socialistas, Bento de Jesus Caraça tornou-se uma das figuras
mais proeminentes da oposição, no momento mais alto
da mobilização e da luta contra o regime, talvez o
único em que esteve próximo o fim do salazarismo,
na sequência da vitória dos aliados das Nações
Unidas.
A sobrevivência
do regime impôs-se por uma repressão brutal. Naturalmente,
o Professor Bento de Jesus Caraça teve a honra de ser um
dos primeiros perseguidos, objecto de um processo onde era acusado
de difamação do Estado Novo e que antecipou a sua
expulsão da universidade e lhe fez perder a sua cátedra
do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras,
pouco antes da sua morte prematura.
Na concepção
de cidadania de Bento de Jesus Caraça, o seu percurso notável
como militante político e cívico é inseparável
da sua acção constante como pedagogo, cientista, escritor
e publicista.
Para o autor
célebre da Cultura integral do indivíduo, um homem
livre só podia ser um homem culto e nada do que era humano
lhe podia ser indiferente.
Em coerência
com essa visão profundamente humanista, Bento de Jesus Caraça,
catedrático de Matemáticas Superiores aos vinte e
oito anos e membro da Sociedade Portuguesa de Matemática,
não só foi um reputado cientista, investigador e professor
universitário, como se empenhou a fundo na realização
de grandes projectos de divulgação da ciência,
do conhecimento e da cultura.
Fundador e director
do Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia
e da Gazeta de Matemáticas, foi também o criador da
Biblioteca Cosmos, uma colecção brilhante onde, entre
1941 e 1948, se publicaram centena e meia de volumes, destinados
a tornar acessível ao maior número a cultura e a ciência
modernas - um projecto sem dúvida pioneiro, cuja importância
nesse campo permanece inultrapassada entre nós.
O catedrático
do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras,
introdutor dos métodos da econometria e autor, entre outros,
dos Conceitos Fundamentais de Matemática e das Lições
de Álgebra e Análise, foi também um grande
conferencista cujos temas - Galileu Galilei, a arte e a cultura,
a escola única - revelam qualidades notáveis de curiosidade
e erudição, tanto quanto a sua preocupação
com a instrução dos trabalhadores que frequentavam
a Universidade Popular Portuguesa, da qual foi Presidente.
Em todos esses
domínios - a política e a universidade, a pedagogia
e a ciência - Bento de Jesus Caraça deixou a sua marca
inconfundível e marcou os seus contemporâneos e o seu
tempo. Fez sempre uma diferença - na intervenção
política, na defesa do espirito cívico, na luta abnegada
pelos seus ideais, no avanço das ciências matemáticas,
na organização da investigação cientifica,
na modernização dos métodos pedagógicos,
na expansão da cultura cientifica.
Homem de ciência,
a sua vocação era a reflexão e soube traduzir
o saber em acção. Professor, a sua carreira era a
universidade e não hesitou em pôr em risco a sua posição
em nome dos seus ideais políticos e da sua dedicação
à causa pública. Homem de valores, a sua ética
de responsabilidade recusava a separação entre os
imperativos do cientista e do cidadão.
Nesses vários
sentidos, podemos e devemos dizer de Bento de Jesus Caraça
que era um homem tão completo como integro e corajoso.
Pelo valor do
seu exemplo, marca também o nosso tempo. Somos seus discípulos.
Espero que as novas gerações possam seguir o seu exemplo,
no inconformismo, na inquietação e na procura dos
ideais, bem como na visão, que permanece actual, da cultura
integral do indivíduo.
Muito obrigado.