![]()
|
|||||||||||||||||||||||||
|
Manuel
Gusmão As
reflexões que vos proponho incidem, no fundamental, sobre dois tópicos:
Em que condições podem a cultura e a liberdade estar em
relação de acção recíproca, na nossa época? E que papel podem
os intelectuais desempenhar, hoje, na construção dessa implicação
mútua? Procurando interrogar, na sua historicidade concreta, a diferença
do nosso presente, julgo entretanto poder situar-me no horizonte do
pensamento de Bento de Jesus Caraça. Para
tentar evitar alguns equívocos comuns, decorrentes do uso de certos
termos, e até para podermos saber mais rigorosamente em que é que
estamos de acordo e por onde passam as nossas diferenças, parecem-me
necessários alguns esclarecimentos prévios. O 1º tem a ver com a própria noção de “intelectuais”. Entre
outras caracterizações possíveis, insistiria numa distinção que, hoje
e para o tema em debate, me parece ter alguma importância. Trata-se
de distinguir entre “intelectuais” e “função intelectual”. Os intelectuais
são hoje um grupo social heterogéneo, que se distribui por diferentes
profissões, supõe uma formação académica tendencialmente adquirida
no ensino superior, e cuja condição se tem alterado significativamente
nas últimas décadas. O seu crescimento em termos absolutos e relativos,
é acompanhado por processos de diferenciação interna, por exemplo,
quanto à distribuição desigual das funções de concepção, direcção e execução. Por sua vez, aquilo que designamos
como função intelectual pode
desdobrar-se, por um lado, no trabalho
disciplinar ou profissional que exercem e, por outro lado, naquilo
que tradicionalmente se considerou, ou tem sido considerado, ser a
sua específica função intelectual - o seu
papel na produção e na intermediação de ideias, projectos e valores,
que se realiza num espaço público, em condições, e através de meios
e instrumentos, que também mudaram. A distinção parece-me útil, porque
as mutações na condição social dos intelectuais, nas suas formas de
trabalho, assim como na esfera do exercício da função intelectual,
levaram a que o conjunto daqueles e o dos que exercem essa função
deixassem de ser coincidentes, se é que alguma vez o foram inteiramente.
Ou seja, nem todos os intelectuais exercem activamente o segundo tipo
de função intelectual. E esta, se é protagonizada por alguns intelectuais,
é-o também por outros actores sociais que a desempenham, não na sua
condição de intelectuais ou devido ao seu específico trabalho, mas
enquanto portadores de uma imagem e de uma destreza mediáticas, ou
como titulares, representantes ou delegados de um poder económico
e / ou político. Esta não coincidência é significativa, designadamente
porque essa função intelectual
tendeu no passado a ser identificada com os intelectuais (ou mesmo apenas com alguns intelectuais),
enquanto elite social restrita, e a articular de forma, directa ou
indirecta, o prestígio no desempenho do seu trabalho numa dada esfera
da cultura, e uma particular autoridade cívica, político-ideológica. O segundo esclarecimento tem a ver com o modo como entendemos
aquilo a que chamamos cultura.
Trabalharei nesta ocasião a partir de uma noção algo informal: a cultura
é um sistema formal e históricamente mutável, de
actividades ou práticas, atitudes e comportamentos; de
meios e instrumentos, de instituições e grupos mais ou menos formais; de
artefactos, obras, produtos ou acontecimentos;
através dos quais as sociedades,
as classes e grupos sociais e os indivíduos humanos, em determinadas
condições sócio-históricas produzem sentidos, ou seja, dão sentido
à sua vida, à sua relação com os outros e ao mundo em que habitam. Este
sistema pode ser decomposto numa série de subsistemas mais ou menos
estruturalmente formais e disciplinares, e desdobrado em diferentes
tipos de práticas, realizadas em diferentes cenários e diversos planos
sociais. Podemos assim falar por exemplo de cultura literária e artística,
filosófica, científica, tecnológica, ecológica ou política. Podemos
distinguir entre cultura erudita ou cultivada, cultura de massas e
cultura popular, todas elas crescentemente mediatizadas, mesmo se
de forma desigual. Assim como podemos observar um largo leque de cenários
que vão dos diferentes tipos de espaço público ao espaço doméstico.
e nesse sentido designa modos de configuração antropológica que comportam
uma tensão entre memória e invenção, entre constrangimento e mobilidade,
reprodução e transformação, dominação e emancipação. Uma tensão concretamente
desequilibrada em favor de um ou de outro desses pólos. Noções
deste tipo têm algumas vantagens, mas não são alternativas à noção
de “cultura integral do indivíduo”, do autor que homenageamos; são
apenas noções que se situam em diferentes planos e têm distintos domínios
de aplicação. Neste caso, trata-se sobretudo de critérios de uma descrição,
enquanto a definição de Caraça, supondo embora descrições, representa
mais directamente uma intervenção no combate de ideias, a disputa
sobre o sentido de uma palavra-valor, que constitui um projecto historicamente
modulado. A noção que esbocei, começa por afastar-nos de uma idealização
ahistórica da cultura e de uma visão linear e idílica do processo
longo e contraditório das relações dos intelectuais com os vários
poderes, contrapoderes e movimentos
(que também são afastadas por Caraça, só que de outra maneira);
e ajuda-nos a compreender que o trabalho cultural criador sempre se
realizou no quadro de determinadas condicionantes materiais, tecnológicas
e sociais mais ou menos constringentes ou propiciatórias, e que a
democratização do acesso à cultura não consiste apenas no acesso a bens culturais,
mas na aprendizagem e apropriação democrática dos próprios meios e
instrumentos que habilitam a recebê-la e, no limite, a produzi-la.
Permitem-nos ainda entender que, sendo várias as culturas,
há também aquelas que fragilizam a liberdade, que esvaziam a democracia,
articulam interesses e privilégios, valores racistas e xenófobos:
há não só concepções e políticas, mas culturas de direita. Pensemos
em alguns sintomas. * Quando
alguém diz “o que eu faço é filosofia / ou pintura, não cultura”,
mesmo que não estejamos de acordo com os precisos termos da frase,
podemos reconhecer que se trata de uma reacção compreensível a uma
situação em que a cultura parece ter-se tornado sobretudo aculturação,
reprodução ou repetição, espectáculo ou circulação de bens num mercado,
supostamente natural e ideologicamente neutro, formatação indiferenciadora. * Da
mesma maneira, devemos ser capazes de compreender como a economia
permeia hoje todas as esferas da actividade humana, e de admitir que
o crescimento das indústrias e serviços culturais comporta traços
de generalização do acesso a bens culturais. Mas quando ouvimos dizer
que “a cultura é economia”, temos de compreender, de responder e demonstrar
que se trata de uma brutal redução economicista, que tende a estreitar
a margem de autonomia relativa do trabalho intelectual, a desrespeitar
a pluralidade das suas lógicas
de desenvolvimento; e que a redução do espaço cultural público ao
mercado capitalista tende a estreitar o leque dos possíveis e da individuação
social. * Quando
alguém argumenta que os sem abrigo, ou os desempregados crónicos,
escolheram essa situação, tal como certos monges medievais escolhiam
viver em grutas no deserto, ou por qualquer determinação genética
ou psicológica, estamos perante mistificações onde a barbárie excede
já os limites da razão cínica. *** Talvez
seja possível admitir que vivemos uma época intensamente contraditória
e que ela é, como muitas outras e, ao mesmo tempo, diferentemente
delas, uma época de transição, com acentuadas características de imprevisibilidade.
Há por exemplo quem fale de uma acelerada “quantidade de mudança”
e ao mesmo tempo afirme que “o progresso tecnológico deixou de ser
visto como a maneira automática e natural de atingir o bem-estar económico
e social do nosso planeta” (João Caraça, in Vértice,
nº 53:40). Outros insistirão em que é hoje possível haver crescimento
económico e aumento dos lucros sem que isso gere desenvolvimento social.
Há quem fale de uma compressão inédita do espaço-tempo e ao mesmo
tempo afirme que isso nos coloca numa praia temporal, em que as inovações
se acumulam sem que tal signifique a abertura de diferentes possíveis,
mais ou menos conflituais. Tudo
parece confluir para a ideia de uma época regida por uma nova fase
de globalização capitalista, concebida não como um complexo de fenómenos
objectivos, mas como uma fatalidade que corresponderia ao máximo de
racionalidade possível; mas também há quem a decomponha em factores
diferenciados, ou quem recorde que se trata de uma nova fase de um
processo já multissecular de mundialização, que terá tido o seu início
com as viagens marítimas, a expansão do comércio, e o surgimento de
novas técnicas como a invenção da imprensa. Tendo
a pensar que as diferentes tensões podem ser referidas a uma contradição
fundamental entre, por um lado, as
imensas forças sociais, humanas científicas e técnicas até hoje libertadas,
assim como a conquista de direitos humanos, sociais e culturais, ditos
de segunda e terceira geração, e
por outro lado, a crescente denegação efectiva desses direitos, e
a persistente incapacidade de resolver problemas como os da fome,
da doença, do acesso ao conhecimento, da “exclusão social”, da extrema
polarização da riqueza e da pobreza, à escala mundial, continental,
ou no próprio plano nacional em que se gera o que tem sido designado
como “um terceiro mundo interior”, ou uma “sociedade de dois terços”,
nas quais um terço é forçado a viver em patamares inferiores ao que
é civilizacionalmente possível. Neste quadro, assistimos hoje à tentativa
de imposição de uma “cultura” governada pela “imposição do
consentimento” ou pela “fabricação do consenso”.
*** Aqui chegados, podemos compreender que a cultura é ela própria
um terreno e um objectivo de luta.
Em pleno desastre, desencadeada já a IIª guerra mundial, o
judeu alemão Walter Benjamin formulará tragicamente a dimensão intensa
e concretamente contraditória da cultura dizendo que “não há documento
de cultura que não seja também documento de barbárie. E a mesma barbárie
que os afecta, afecta também o
processo da sua transmissão” (199). Curiosamente, numa nota de 1939
à sua conferência sobre “A cultura integral do indivíduo”, Bento de
Jesus Caraça dá conta da dificuldade em perceber “a existência na
Alemanha, lado a lado, de manifestações da mais alta civilização e
da mais negra barbaridade” (54). É certo que ele distingue fortemente
entre cultura e civilização, mas a questão que ele põe pode ser cruzada
com a que outros nessa altura se colocaram: ‘Como é que é possível
que a Alemanha nazi nasça na “pátria” de Goetnhe ou Holderlin, de
Bach ou Beethoven?’. Por seu turno, o que Benjamin
pode ter querido dizer deve ser entendido à luz de uma outra
formulação sua, segundo a qual “é apenas a uma humanidade emancipada
ou redimida que pertence inteiramente o seu passado” (196); “apenas
para ela, em cada um dos seus momentos, o seu passado torna-se citável”
(id.). Por isso, Benjamin falava também da necessidade de “em cada
época arrancar a tradição ao conformismo que quer apoderar-se dela”
(198). Quando
vinculamos, e bem, cultura e liberdade (como o fazia Bento de Jesus
Caraça), não temos que idealizar e reduzir a concreta complexidade
histórica, estamos, sim, de uma certa maneira, a supor ou a conceber
a cultura como um projecto e a trabalhar ou a lutar por determinados
objectivos culturais e políticos. É, nesse sentido, que Bento de Jesus
Caraça escrevia lucidamente em 1931, que “a cultura é simultaneamente
um meio e um fim”. Trata-se,
para nós, de compreender que o universo complexo da cultura, que procurei
esboçar, se constitui a partir daquilo que fazemos com a capacidade
de linguagem, com as formas de trabalho e as modalidades de combinação
entre trabalho e não-trabalho, assim como com as “técnicas do corpo”
(Marcel Mauss) e, nesse sentido, designa o próprio plano da
configuração e reconfiguração, históricas e transhistóricas,
do humano, enquanto projecto de liberdade, e de acção livre sobre
as suas próprias determinações. Na autonomia relativa do trabalho intelectual existem de
forma, ao mesmo tempo, radical e tendencial, vectores de descoberta
e invenção, de crítica e de projecto. Por aí, aliás, o trabalho intelectual
apenas realiza, especificamente, o caracter estruturalmente transformador
de todo o trabalho humano em geral, que Marx começou a desvelar. Tão
essencialmente transformador que é ele próprio portador do projecto
do seu fim. Esse fim do trabalho designa, no pensamento de Marx e
no seu horizonte, o livre jogo das faculdades humanas. Na situação
contemporânea, a luta dos intelectuais pela autonomia relativa do
seu trabalho não se tornou obsoleta, antes adquire um renovado grau
de exigência em face das tentativas para a reduzir; assim como é necessária
a luta pela promoção das suas condições de trabalho, pela sua efectiva
participação na definição das políticas para as áreas que especificamente
conhecem, e pelo reforço da repercussão social dos produtos do seu
trabalho. O
trabalho intelectual esboça e prefigura uma dialéctica de emancipação
entre indivíduo e colectivo que, noutros termos e noutras circunstâncias,
preocupava Bento de Jesus Caraça. Permitam-me que esboce a questão,
referindo-me em particular ao mundo da literatura e das outras artes.
O que está em jogo na invenção e comunicação artísticas pode ser,
em termos nitzscheanos a vontade de poder, a disputa do poder simbólico
ou a dominação ideológica; ou pode exigir a mais profunda solidão
individual. Mas, por um lado, ninguém inventa a língua que fala, ninguém
trabalha sem contar com o trabalho de outros, e, por outro lado, a
obra produzida e recebida é, também, a promessa de uma comunidade
livre, ao mesmo tempo i-mediata e sempre diferida, como um horizonte
projectado e antecipado, ou uma possibilidade real. Recebemos
do iluminismo uma certa forma de diferenciação das esferas da cultura
e uma concepção crítica da razão, assim como recebemos o processo
longo das críticas dessa concepção. Entretanto, aquilo que, na nossa
época, nos desafia é ainda a reconfiguração crítica do projecto que
se joga com o iluminismo, atravessa e divide o romantismo e se projecta
na modernidade estética. Trata-se, ao mesmo tempo, de prolongar
a crítica da razão instrumental, de admitir a pluralidade das
figuras da razão, assim como de trabalhara admissão de uma pluralidade
de figuras da razão, assim como de trabalhar com a multiplicidade
e a interacção das culturas. |
|||||||||||||||||||||||||
|
Coordenação:
Associação para o Ensino Bento de Jesus Caraça |
|||||||||||||||||||||||||