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HOMENAGEM AO CIDADÃO

Lídia Homem de Melo

MEMORIAS DO SÉCULO

 in Notícias Magazine – Nº 76
Texto de Luísa Paiva Boleó. Fotografias de Raúl Cruz

(...)

Na Universidade, aos cinco anos...

Aos cinco anos fui para a Universidade Popular Portuguesa. No princípio do século houve um movimento de renovação do ensino a nível do País. Só em Lisboa havia três, e surgiu mesmo antes da República. Era a tomada de cons­ciência que a instrução devia chegar a todos. Uma dessas Universidades Portuguesas funcionava na Sociedade de Geografia. Tinha instrução primária. Essa era dirigida pelo dr. Reis Santos, pai de Luís Reis Santos que veio depois a ser director do Liceu Machado de Castro, em Coimbra. Em 1916, foi fundada, por António Ferreira de Macedo e Bento de Jesus Caraça, a Universidade Popular Portuguesa, na Rua Luis Deruet (hoje vivo em frente) e ocupava umas salas cedidas pela Cooperativa A Padaria do Povo. Primeiro fo­ram cedidas e, depois de 1924, passou a ser inquilina da Pa­daria do Povo.

Eu ia para a Universidade Popular, mas como era muito pequena (tinha cinco anos) fui para os tempos livres, não era ainda bem a parte de estudos, aprendia a cantar no or­feão”.

Jogos com Bento Jesus caraça

Não era bem um jardim in­fantil como os de hoje. Lídia conta como “era diferente o es­pírito, era fruto das ideias sobre a educação dos finais do século passado, com um forte sentido cívico e tínhamos diversas acti­vidades. Havia pessoas mais ve­lhas que inventavam histórias. Não eram histórias conhecidas que nos contavam. Eram inven­tadas no momento e assim eram sempre diferentes. Tam­bém nos contavam histórias verdadeiras como, por exem­plo, sobre o Bell (inventor do telefone), a vida de Pasteur, a invenção da máquina a vapor e também histórias de fadas” (...).

Lídia Homem de Gouveia continua a história da sua educação numa universidade diferente: «Havia uma se­nhora, que se chama Susana Conceição Silva (tia do gene­ral Conceição Silva), que desenhava no quadro figuras alusivas às histórias que íamos lendo. Era uma pessoa com uma habilidade extraordinária. Tínhamos também aulas de desenho com o mestre Lucena e fazíamos mui­tos jogos didácticos. Eu linha um irmão mais velho, que também andou na Universidade Popular, e uma irmã mais nova. No orfeão, cantávamos coisas portuguesas e éramos dirigidos pelo Hermínio do Nascimento. Nos jo­gos éramos orientados pelo Bento Jesus Caraça, que era muito novo — devia ter uns 19 anos — linha muita paciên­cia para nós e orientava-nos. Ele educava-nos para a vida através dos jogos. Dizia para estarmos atentos, respeitar os outros, não fazer batota. Eram os jogos tradicionais —ao trapo queimado, à Barquinha e outros.

Depois, fui para a escola primária, mas aos 12 anos fui promovida’ a leitora na Universidade Popular. Tínhamos o costume de fazer leituras dialogadas. Era mais vivo, menos monótono (...).A minha professora de instrução primária chamava-se Elvira Guapo Garção, morava aqui (onde é hoje a Casa Fernando Pessoa) no segundo andar esquerdo, por ci­ma mesmo da casa onde ele viveu. Andei na Escola das Ter­ras, aqui em Campo de Ourique, a nº 6 e a n.0 9. Ainda há lá uma amoreira que nós plantámos há muitos anos. gomo disse, as leituras eram dialogadas. Os livros de histórias só começámos a ler mais tarde. Da Virgínia de Castro e Almei­da e da Ana de Castro Osório, mas na Universidade Popu­lar eram outros livros. Depois, já mais velha, as leituras eram já do nível liceal. Líamos Alexandre Herculano, Al­meida Garrett (a peça Frei Luís de Sousa), textos sobre a His­tória de Portugal e outros.

A minha professora da escola n.0 6 também lia na Uni­versidade Popular. Tinha uma boa relação de amizade com ela, embora eu fosse mais nova, claro. Depois fui estudar, já co­mo aluna, no Liceu Pedro Nu­nes e, a partir dos 10 anos, pas­sei a ir à noite para a Universidade Popular. Ia de vontade, não nos marcavam fal­tas. Íamos por gosto e aprendíamos muito. Era mesmo em frente da minha casa.

As aulas eram frequentadas por todas as pessoas interessa­das: operários, professores de instrução primária que queriam aprender mais, por lojistas, por toda a gente que quisesse. Até lá estudou o professor Manuel Marques, que era cego. Era uma escola livre e não se paga­va. As salas estavam sempre cheias de pessoas de todas as idades. Tínhamos professores ilustres como Vieira de Al­meida, João Couto, professor de Geografia e que foi director do Museu Nacional de Arte Antiga.

O meu pai dirigia a parte pedagógica, mas também dava aulas. As idas a casa do Presidente António José de Almeida eram para falar de ensino e educação. Eu ficava na sala ao lado, a brincar, enquanto os ouvia falar e pas­sear de um lado para o outro. Era muito pequena, mas tenho bem presente o gesto do Presidente de me fazer uma festa na cabeça.

Aos sábados, havia outras aulas, dadas por pessoas como António Sérgio, Magalhães Lima, Agostinho de Campos, Avelino Cunhal, Ramada Curto, Batalha Reis, Jaime Corte­são e tantos outros. Penso que também o Agostinho da Sil­va, mas já não me lembro bem. Era como se se abrisse uma janela para o Mundo. E contavam coisas que não vinham nos jornais. Estas aulas já eram chamadas conferências.

Desde pequena que nos eram dados muitos conhecimen­tos e gostávamos muito de aprender. Os Lusíadas foram estudados em 34 lições/conferências. Ali está concentrada a nossa História e incutia-nos sentido da pátria. O lema da Universidade Popular Portuguesa era ‘A ciência e a cultura ao alcance de todos’.

(...)

Na leitaria com Fernando Pessoa

Lídia Homem de Gouveia conheceu Fernando Pessoa:

(...)

Penso que o Fernando Pes­soa também ia à Universidade Popular Portuguesa, mas às conferências, não às aulas. Ia só ouvir. Ia às conferências do! António Sérgio e de outros. Há pessoas que iam às conferências e disseram-me que sim, que o Fernando Pessoa ia lá. Ë possível, mas eu nunca o vi. Sem chapéu e dentro da sala, eu não o iden­tificava, mesmo que estivesse na assistência. O sr. Benjamim via-o em cabelo. Pudera, era o barbeiro dele. Nem quando me cumprimentava ele tirava o chapéu. Só levava dois dedos ao chapéu e inclinava um pouco a ca­beça. Acho que nunca dissemos sequer bom-dia!. Ele era muito reservado.

Eu comecei a conhecer a obra de Fernando Pessoa quando comecei a vir aqui às conferências e actividades culturais da Casa Fernando Pessoa. Como costumo di­zer eu desconhecia a pessoa que havia em Pessoa.

Não gosto de dizer que conheci Fernando Pessoa. Di­go sempre: ‘Eu vi Pessoa’. Não tenho a veleidade de di­zer que o conheci. Mas tenho gosto em me ter tantas ve­zes cruzado com um dos homens de maior valor da nossa literatura e da literatura mundial”.

A conversa ia longa. E Lídia, que nunca me deixou tra­tá-la por “senhora dona”, acrescentou: «Como vê, eu não fui ninguém importante. Porém, na minha vida, tive oportunidade de me cruzar com pessoas que foram im­portantes. Eu não tenho valor”.

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