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HOMENAGEM AO CIDADÃO

"Nessas reuniões na Brasileira Bento Caraça fazia verdadeiros cursos no café"

Entrevista com o Dr. Ludgero Pinto Basto

"Nessas conversas falávamos de vários assuntos: sobre a política do país nessa altura, sobre a posição filosófica das pessoas, sobretudo dos intelectuais em relação ao que se passava, o que se passava na vida política."

Pergunta: Tiveste contactos com o Professor Bento Caraça?

Resposta: Encontrei-me com ele várias vezes no Café Chave D´Ouro ou na Brasileira nos anos 30. Costumava reunir-se aí com estudantes. Conversava sobre filosofia, política. Frequentei esse grupo.

Conversei com Bento Caraça aí acerca dos assuntos que havia…Estávamos na mó de baixo. A gente queixava-se do que se passava connosco. A certa altura, a policia interveio e nós tivemos que ir para a rua. Não sei se foi a PSP ou se foi directamente a PIDE. Veio o Caraça também para a rua e continuou a conversar connosco no passeio.

Agora não me lembro é das pessoas que estavam lá comigo, quer dizer, dos meus parceiros. Já não sei quem eram. Eram vários, em várias épocas da vida.

Pergunta: Eras estudante ou já eras médico?

Resposta: Devia ser ainda estudante.

Pergunta: Chegaste a participar na Universidade Popular?

Resposta: Não, mas sabia da sua existência. Nessas conversas falávamos de vários assuntos: sobre a política do país nessa altura, sobre a posição filosófica das pessoas, sobretudo dos intelectuais em relação ao que se passava, o que se passava na vida política. E era sobre isto que ele costumava falar connosco.

Além da Universidade Popular, que reunia à noite, havia esses encontros de tarde, no café.

Pergunta: Sobre o Socorro Vermelho Internacional, ele também estava ligado ao S.V.I.?

Resposta: Já não me lembro se era eu que estabelecia a ligação, mas penso que não. Ele contribuía para o Socorro Vermelho. Ele estava ligado ao Socorro Vermelho e ao Partido. É claro que nessas circunstâncias não se discutia o problema do Partido, era preciso manter um certo sigilo à volta das ligações das pessoas, sobretudo das pessoas de certa notoriedade.

Pergunta: Ouvi dizer que Bento Caraça emprestava o “Monde” dessa época aos jovens…

Resposta: Sim, eu recebia também esses elementos de propaganda, que eram clandestinos aqui mas não eram clandestinos na França. Nós trocávamos esses elementos de propaganda.

Pergunta: Eram estudantes de várias faculdades?

Resposta: Sim. Ele falava com os estudantes, com a mocidade da altura, com a rapaziada nova.

Era um homem que tinha uma preparação filosófica e política fora do vulgar. Discutia os problemas que nós púnhamos.

Depois acabei o curso, tive que imigrar. Deixei de ter ligações com ele. Encontrava-o esporadicamente. Nunca mais colaborei com um grupo dessa natureza.

Entrei no Partido e deixei de o contactar para não o comprometer. Era preciso tomar precauções. Mas lembro-me perfeitamente dessas reuniões na Brasileira. Bento Caraça fazia verdadeiros cursos no café, era um militante activo.

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