"Além
do professor nós víamos o cidadão interveniente"
Entrevista com
o Dr. Esteves Belo
"(...)ele
era um professor que não só ensinava, ele estimulava
que cada um dos seus alunos (...) fizesse o seu próprio caminho,
na procura do conhecimento, que cada um de nós estabelecesse
o seu próprio desafio."
Pergunta: O Dr.
Esteves Belo, que foi aluno de Bento de Jesus Caraça, é
uma pessoa bem conhecida da nossa vida pública. Eu gostaria
de lhe perguntar como era Bento Caraça como professor, como
é que ele se relacionava com os alunos, recordar um pouco também
qual era o ambiente da vida académica na época em que
foi estudante aqui, no actual ISEG, e que nessa altura era o ISCEF,
e portanto gostaria que me dissesse algumas palavras sobre o ambiente
da Escola, sobre o ambiente das aulas
Resposta: Não
me fez uma pergunta, fez-me uma série de perguntas
E relativamente
a esse série de perguntas tenho que lhe dizer, em primeiro
lugar, que o professor Caraça era para nós, alunos do
tempo, um mestre. Era aquele professor que ensinava mas ensinava para
depois avaliar mas não avaliava pela memória, avaliava
pelo saber, o saber assimilado, o conhecimento assimilado. Para traduzir
isto duma forma mais prática, basta dizer o seguinte: o meu
ponto de frequência, o exame de frequência consistia no
seguinte: "O sr. professor tal, matemático tal, no seu
livro tal, nas páginas tais, disso isto assim, assim"
(sete, oito linhas) e depois
comente. Nós podíamos
levar todos os livros que quiséssemos, quer os editados pelo
professor Caraça quer os de outros matemáticos, portanto,
só quem tivesse estudado, quem tivesse assimilado, compreendido,
relacionado as matérias, é que efectivamente podia responder.
É que ele era um professor que não só ensinava,
ele estimulava que cada um dos seus alunos pesquisasse, indagasse,
procurasse por si próprio, fizesse o seu próprio caminho,
na procura do conhecimento, que cada um de nós estabelecesse
o seu próprio desafio. Relativamente a isso lembro-me que quando
acabei
nos últimos anos
do curso, o professor Caraça
criou o Centro de Estudos Matemáticos aplicados à Economia,
que era ele, os assistentes e tinha convidado alguns dos alunos aos
quais distribuía certas tarefas. Uma das tarefas, um dos temas
que ele me confiou era estudar o problema da quadratura do círculo.
A quadratura do círculo não tem solução,
simplesmente era o desafio, o que se punha era, com que capacidades,
com que vontade, que voltas, que procura é que eu teria que
realizar para abordar, para enfrentar aquele tema. Há desafios
que nós já sabemos que não somos nós próprios
que os vamos alcançar. Outros os alcançarão.
Mas é exactamente essa atitude de procura, esse estímulo,
esse acicate que estimulava em cada um de nós. E isso, de facto,
era extraordinário.
As aulas, nós entrávamos nas aulas, éramos três
em cada carteira. A aula cheia. Ele varria a aula (com a vista), aquilo
era um silêncio. A divagar
Uma linguagem muito simples que nós entendíamos perfeitamente.
Eu lembro-me que tinha passado por Matemáticas, por um professor
do Instituto Comercial, e quando chegou a expor o conceito de Limite
dizia para os alunos: "Isto não é para os senhores
entenderem". E quando fui para Ciências Económicas,
aqui para esta casa, houve uma aula em que se expôs o conceito
de Limite e vejo o professor Caraça explicar, e começar
e desenvolver
"Isto afinal entende-se, isto afinal é
para perceber, para compreender". Tinha uma capacidade
é
que cada um de nós pensava que ele estava a dar aula para nós
próprios. Ele como que adivinhava as dúvidas que cada
um de nós tinha. Era, de facto, um professor espantoso. Aliás,
já o referi, como se dizia "Isto Sem Caraça Era
Fácil" o que correspondia às letras do I.S.C.E.F..
Não era que fosse difícil a cadeira dele, agora, ao
fim e ao cabo, por trás disso estava que praticamente no Instituto
a barreira, o trabalho, o empenho de cada um era a cadeira de Matemáticas
Gerais.
Pergunta: Era
um professor que não facilitava, não é, era um
professor exigente?
Resposta: Exigente
E
sendo exigente era duma seriedade extraordinária, é
que eu não me lembro nem por tradição anteriormente,
nem depois acompanhando os outros cursos de alguém que tenha
dito: "O professor Caraça cometeu uma injustiça
comigo na aprovação ou na reprovação"
Pergunta: Uma
outra coisa que eu gostava de lhe perguntar é se a relação
dele com os alunos era uma relação próxima ou
distante, era um professor, como todo o valor que ele tinha, que se
distanciava dos alunos ou tinha uma comunicação fácil?
Resposta: Próxima,
bastante próxima, um poder se insinuação, de
atracção em relação aos alunos, extraordinária.
Mas, sabe, o que havia era uma aproximação com muito
respeito, com muita admiração, sabe, nós, para
além do professor, naturalmente nem todos, mas além
do professor nós víamos o cidadão interveniente,
o humanista militante e, portanto, por tudo isso não o podíamos
localizar simplesmente como um mestre, como um professor. Até
porque, olhando, percorrendo aqueles Conceitos Fundamentais adivinhava-se
desde logo que havia no relacionamento da Matemática com a
vida, nos chamados Conceitos Fundamentais da Matemática havia
ali alguma outra mensagem de cidadania, de democracia, de justiça
social e que, portanto, abria-se uma luz que naquele tempo era extraordinariamente
importante para nós. Portanto era uma relação
de grande respeito, de grande proximidade, de grande admiração.
Pergunta: Certamente
que na época as actividades estudantis seriam dificultadas,
certamente não havia Associação de Estudantes
aqui, no ISCEF, mas havia certamente movimentações,
actividades, e o Bento Caraça tinha qualquer relação
com essas actividades estudantis?
Resposta: Eu sou
do curso de 43-47, portanto em 43-44, 44-45, finda a guerra, em 45,
quando houve a conferência de Outubro, na Voz do Operário,
eu lembro-me de eu e outros colegas, entre eles o Costa Leal, termos
colaborado na recolha de estatísticas para o trabalho que ele(professor
Caraça) estava a realizar para a conferência da Voz do
Operário.
Nós, aquilo que podemos dizer os oposicionistas nessa altura,
tínhamos uma movimentação mas uma movimentação
não muito organizada. Mas só depois do fim da guerra,
em que se dá a grande manifestação em que os
estudantes participaram muito activamente, então sim, nessa
altura é que damos novamente vida à Associação
Académica, em que existe só uma lista, única,
ela era da presidência do Dr. Costa Leal, da qual eu também
fazia parte, não houve lista dos poucos situacionistas que
nessa altura se tinham expressado, que se expressavam, porque a grande
maioria estava contra o regime. Uns duma forma mais activa, outros
menos activa, tanto assim que a única lista que aparece é
a nossa e que foi eleita, portanto, por grande número de gente,
por unanimidade, sem qualquer voto contra.
E é nessa altura, que nós, como associação
académica, temos uma acção quando o professor
Caraça é demitido. Fazemos uma reunião aqui,
no Instituto e depois vamos até casa dele manifestar a nossa
discordância, a nossa oposição à decisão
dessa altura da demissão dele pelo governo.