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HOMENAGEM AO CIDADÃO

"Um homem espantoso e admirável"

Entrevista com Prof.Doutor António Borges Coelho

"Em minha casa tenho montanhas de edições dos Conceitos Fundamentais da Matemática porque não resisto a uma espécie, a uma forma de comemorar e de me aproximar dessa grande figura que foi Bento Jesus Caraça"

António Borges Coelho, conhecido historiador e investigador, realizou em Vila Viçosa uma intervenção sobre a vida e obra de Bento de Jesus Caraça. Nessa altura foi-lhe feita uma entrevista sobre as suas recordações do impacto da figura de Bento de Jesus Caraça sobre os jovens do seu tempo.

Pergunta: Sabendo que o Borges Coelho foi activista do MUD Juvenil no princípio dos anos 50 e recordando-me eu dum Boletim que vi na altura, em que se notava a grande admiração  que o MUD Juvenil, os seus aderentes e activistas tinham pelo Bento Jesus Caraça, gostava de lhe perguntar como é que o Bento Caraça era visto pelos jovens do seu tempo, jovens de vanguarda, jovens que actuavam contra a ditadura e como é que a obra de Bento Caraça se repercutiu naquela época, já depois da sua morte, no tempo da juventude do Borges Coelho.

Resposta: O primeiro contacto indirecto que tive com Bento Jesus Caraça foi com livros da Colecção Cosmos, ainda em Trás-os-Montes, designadamente os livros de Flausino Torres, que aliás acabei de citar: “Civilizações primitivas” e “Religiões primitivas”, que tiveram em mim um grande impacto. Eu tinha acabado de sair do seminário e portanto aqueles livros abriram-me. Esses livros e todos os outros dessa colecção estavam ligados ao Bento de Jesus Caraça e eu vim para Lisboa precisamente no ano da morte do Bento de Jesus Caraça. A sua morte tinha chegado a Trás-os-Montes, sabia quem ele era através da colecção e também do impacto que tinha causado quer a  morte dele, quer, um pouco antes, a morte de Abel Salazar.

Em Lisboa, integro-me no MUD Juvenil. O MUD Juvenil era variado, tinha intelectuais, jovens estudantes e trabalhadores. Eu era simultaneamente as duas coisas, em parte como o próprio Bento de Jesus Caraça.

Para mim, para lá de nós multiplicarmos os postais com a sua fotografia quase como uma figura mitológica, mas não era mitológica, para mim nunca foi mitológica, foi uma figura bem real e sobretudo um homem espantoso e admirável, autor dos Conceitos Fundamentais da Matemática.  Não tinha ainda lido as conferências, mas os “Conceitos” tiveram em mim uma influência muitíssimo grande, quer no que se refere a apreciar propriamente  a Matemática, para mim as aulas de disciplina eram as aulas de matemática, quer pela atracção e pela novidade e pela beleza com que ele aborda, por exemplo, a filosofia grega e como aborda, ao fim e ao cabo, a própria dialéctica. Isso para mim foi uma obra marcante.

Em minha casa tenho montanhas de edições dos Conceitos Fundamentais da Matemática porque não resisto a uma espécie, a uma forma de comemorar e de me aproximar dessa grande figura que foi Bento Jesus Caraça, e que nós lembrávamos nos nossos boletins nos aniversários da morte e não só, como grande lutador antifascista, como homem da unidade antifascista e o nosso movimento era precisamente um movimento de unidade e por isso ele era efectivamente o nosso patrono.

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