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HOMENAGEM AO CIDADÃO

As minhas recordações das lições do Professor Bento de Jesus Caraça e da sua personalidade

 

 

Maria Manuela Fisher
Licenciada em Economia, ex-aluna de Bento de Jesus Caraça

Recordo a minha entrada no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (I.S.C.E.F.) em 1943 e a alegria e satisfação que isso me deu, só ensombradas pela dificuldade que teria, segundo me diziam, em fazer as Matemáticas Gerais, regidas pela Professor Bento Caraça.

Recordo as suas aulas. Saíamos da aula anterior e íamos logo para a entrada da sala onde ele ia dar a sua lição, pois quando a porta se abria, precipitavamo-nos, para ver se conseguíamos lugar na primeira fila de carteiras, o que nem sempre era fácil. O número de alunos parece que duplicava e muitas vezes ficávamos aos três em cada carteira e lá para o fundo havia quem ficasse de pé. Não eram repetentes; sei hoje que havia alunos do Técnico e da Faculdade de Ciências que se deslocavam ao I.S.C.E.F. para seguir as suas lições. E que lições! Duma clareza de exposição e duma afabilidade e simpatias pessoais, que o aluno se sentia cativado e atraído, não só pela matéria, como pela personalidade do Professor. Por vezes acontecia, e comigo aconteceu, que o professor parava a exposição e dirigindo-se directamente a um aluno, perguntava: "não está a ver como se chegou aqui? eu explico novamente". E com toda a simpatia e boa vontade repetia a exposição. Claro que no meu caso me sentia envergonhadíssima, e também muito me admirava , como é que ele, numa sala cheia, conseguia detectar, que este ou aquele aluno não estava a seguir o seu raciocínio. Não é necessário recordar, que naquela época, o procedimento da generalidade, ou a quase totalidade dos professores era bem diferente.
Quando as aulas acabavam havia muitos alunos que saíam, mas recordo bem, que havia sempre alunos que ficavam na sala, à volta do Professor Caraça, a tirar dúvidas, ou a falar com ele sobre outros assuntos.

Em 1943, entraram comigo para o I.S.C.E.F., onze raparigas, o que para a época, foi um acontecimento. Julgo que ao todo nos outros anos não haveria mais de seis. Então dentro do espírito da época - rapazes para um lado, raparigas para outro- criou-se uma sala de estar para raparigas.
Depois começámos a desenvolver actividades dentro da "nossa" sala. Pequenas exposições, palestras, geralmente sobre problemas da mulher e outras.
Das pessoas que nos ajudavam nessas iniciativas, recordo o Professor Caraça, que estava sempre pronto a nos indicar pistas e que nunca faltava a nenhuma palestra, sentado na primeira fila, ouvindo com toda a atenção e no fim chamando a oradora para a elogiar ou fazer a sua crítica.
O tempo não pára, e hoje tenho pena de não ter aproveitado mais da sua convivência e ensinamentos, da sua extraordinária visão do mundo e trato pessoal absolutamente for a do vulgar, não falando já dos seus conhecimentos científicos, sobre os quais não sinto condição para julgar.

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