Intervenção de Mário Nogueira
Membro do Conselho Nacional

 

Em defesa da Escola Pública e dos valores de Abril

 

Camaradas,

Num momento em que os portugueses se preparam para decidir sobre o seu futuro próximo, falar de Educação, como de qualquer outra área social exige uma abordagem holística.

As lutas desenvolvidas pelos professores, como as dos profissionais da saúde, dos trabalhadores das empresas privadas, do comércio à indústria, dos trabalhadores do setor financeiro, as lutas dos polícias ou dos agricultores são justas, seja qual for a expressão que, em cada momento, adquirem.

São lutas em defesa dos direitos, por melhores salários, carreiras e condições de trabalho e de vida; são lutas por melhores serviços públicos e uma sociedade justa na distribuição da riqueza, que se justificam por terem sido outras as opções dos governos.

Das lutas tem-se tentado aproveitar a extrema-direita que, para além de populista no discurso, é oportunista e farsante, nelas procurando cavalgar.

Essa não é razão para deixar de lutar, mas devemo-nos perguntar por que motivo gente que luta se deixa levar na cantiga da extrema-direita, admitindo, até, entregar-lhe o voto. A essa extrema-direita que mete ódio no discurso, para quem os imigrantes são seres inferiores, que trata a diversidade como aberração, que põe em causa valores essenciais da democracia. Uma extrema-direita que tem como referências atuais gente pouco recomendada, como Salvini, Le Pen, Órban, Milei, Bolsonaro ou Trump.

Que tem esta gente para oferecer para além de um discurso hipócrita sob o qual se tornam opacos os seus verdadeiros interesses? O que pode levar a pensar que a resolução dos problemas das pessoas e da sociedade passa pelo seu crescimento? Sejamos claros, não passam de impostores a vender banha de cobra venenosa.

Conversando com professores e outros trabalhadores que admitem votar na extrema-direita e perguntando-lhes se confiam em tal gente, algumas até vituperam os seus principais rostos. Garantem não querer a sua vitória, mas acham que essa é uma forma de penalizar quem os tem enganado.

Desta reação das pessoas, bastas vezes manipulada pelo que circula no bas fond das redes sociais, retira-se que:

  1. A intenção de votar na extrema-direita resulta de descontentamentos de quem se sente enganado por sociais-democratas, de nome ou família política, que, anos e anos a governar, acumularam e agravaram problemas, infernizando a vida das pessoas. Os preconceitos que ainda persistem na sociedade e a promoção mediática do populismo parecem fazer o resto;
  1. O crescimento da extrema-direita é derrota de quem tem mentido aos portugueses, prometendo, mas não cumprindo e, em alguns casos, usando o poder como couraça de impunidade;
  1. Ir atrás do que, de forma aparentemente inorgânica, entope as redes sociais, só por ingenuidade… ou falta dela. Não há inorgânicos. Há interesses que se escondem sob essa capa e não são os que servem quem trabalha e reclama uma vida melhor e mais justa;
  1. A sociedade não pode perder a memória e porque alguns dos mais jovens não viveram tempos que não devem ser esquecidos, compete a quem os viveu transmitir o que conhece. É um dever cívico em prol da democracia.

A extrema-direita que cavalga lutas para sacar votos, promete hoje aquilo a que se opôs, por vezes ferozmente. Alguns dos seus atuais dirigentes, antes de se radicalizarem, consideravam e não mudaram de opinião, antes a terão reforçado, que:

  • Defender a Escola Pública é ter uma visão estatizante e tudo fizeram para manter expedientes que a fragilizaram, provocaram milhares de horários-zero e desempregados e encheram os bolsos de uns quantos com milhões sacados ao Estado. Contratos de associação, cheque ensino, liberdade de escolha e tudo o que possa dar cabo da Escola Pública são as águas em que se navega da direita à extrema-direita. E à acusação que fazem de se querer alimentar a Escola Pública com os filhos dos outros, responde que são eles querem quer alimentar interesses privados com o dinheiro que é de todos;
  • O SNS é para abater, apesar de, quando a doença aperta, ser o público que dá resposta, como deu em tempo de pandemia. Aí, os privados fugiram com o rabo à seringa. A vingarem as suas intenções, o atendimento teria em conta o prémio do seguro, destinando-se o público aos indigentes e a quantos a pobreza exclui;
  • A Segurança Social pública e universal não é solução para eles por ser inimiga dos produtos que enchem os cofres do capital financeiro, com lucros que disparam quando o empobrecimento alastra.

Foi com a direita no poder, essa que pariu muitos dos atuais dirigentes da extrema-direita,  que se impuseram serviços mínimos, obviamente ilegais, a necessidades não impreteríveis; foi a direita, com os dirigentes que, entretanto, se radicalizaram, juntando-se a fascistas retintos, que se opôs à constituição de sindicatos de polícias e ao direito à greve, tendo hoje a desvergonha de dizer o contrário; foram eles que aprovaram as mais profundas e antidemocráticas alterações ao código de trabalho, favorecendo os patrões, e se o líder do PS acha, como afirma, que não se negoceia sob coação, por propõe não alterar que não altera o que na contratação coloca os trabalhadores sob chantagem?

Foram rostos desta direita extremista que, já no Portugal de Abril, alimentaram uma rede bombista e forças como o ELP e o MDLP, não sendo de desprezar a hipótese de algumas das larvas se manterem vivas, como confirmam ameaças recentes a sindicalistas; que incentivaram assaltos a sedes partidárias e de organizações sindicais de classe; que perseguiram e assassinaram pessoas, como o Padre Max e a jovem Maria de Lurdes. Foi com a direita no poder que foram mortos dois camaradas no Porto, no 1.º de Maio de 1982; que a primeira grande manifestação de polícias foi reprimida por camaradas seus em 1989; que tiveram lugar, em 1994, as cargas policiais na ponte 25 de Abril… Não vamos ajustar contas com o passado, mas não deixaremos que se esqueça, ficando entretidos com a discussão dos irmãos Dupond/t sobre o alcance da diferença no “d”.

Esta intervenção teve uma óbvia carga política, é verdade. É mais uma conquista de Abril que apagou o tempo em que a política era só para os políticos, não devendo os sindicatos meter-se nela. Às vezes, parece haver quem ainda não percebeu que o tempo é outro.

Concluo, camaradas, assinalando que próximos do final do primeiro quartel do século XXI, o agouro de alguns não se concretizou. A CGTP e o movimento sindical unitário em geral, a quem Maldonado Gonelha e a UGT não conseguiram quebrar a espinha, afinal resistiram ao dobrar do milénio. Apesar dos ataques a que tem estado sujeito, está vivo e apto a receber sangue e linfa intersticial renovados que são garantia de futuro.

Esta renovação dos órgãos reforçará o sistema imunitário e tornará ainda mais forte a capacidade de intervenção, ação e luta, sendo este o caminho certo para a nossa Central. Também da parte da FENPROF e dos seus Sindicatos será garantida uma representação renovada nos órgãos da CGTP. É assim que é e, em minha opinião, assim deve continuar a ser.

Viva o XV Congresso da CGTP-Intersindical Nacional

Vivam os trabalhadores de Portugal e do mundo

Viva a Revolução de Abril, fascismo nunca mais!

Seixal, 24 de Fevereiro de 2024